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A Felicidade, O Trabalho, Liderança E O Carnaval

Coluna 3565

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Quem me acompanha aqui, sabe que fiz uma transição de carreira recente (vide penúltima coluna, intitulada “Transição de carreira: mais cedo ou mais tarde você fará a sua!”). Nesta coluna, comentei que algumas pessoas falavam de minha coragem de largar um ótimo emprego numa multinacional de grande prestígio para ir trabalhar no terceiro setor. E que eu interpretava isso como “putz, ela fez bobagem!”

Ultimamente, após 6 meses da minha mudança, ao invés de falarem da minha “coragem”, as pessoas me perguntam se estou FELIZ. Sim, em maiúsculas, é assim que eu as ouço: curiosas, gritando estridentemente. Certamente estão se perguntando se trabalhar com o que chamamos de “propósito”, traz a tal da felicidade.

Na maioria das vezes, não consigo dar uma resposta direta. Desconverso, digo (o que é verdade) que, para mim, a felicidade é algo complexo, que não se resume somente à minha atividade profissional, que não sei dizer se sou mais feliz agora, talvez esteja mais feliz no meu dia-a-dia, mas que não sei precisar. Que tem dificuldades e chateações também. Enfim... dou aquela enrolada básica porque, na verdade, não sei o que responder. Será que estou mais feliz? O que é felicidade profissional? Ela é possível? Ela pode ser dissociada do resto?

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Quando criança e adolescente, eu tinha sonhos, muitos sonhos e ambições. Queria ser uma profissional bem-sucedida, queria ser muito boa naquilo que escolhesse fazer e queria também ter sucesso para poder dar à minha mãe as coisas materiais que ela tinha dificuldade de proporcionar a mim e a meus irmãos. Traduzindo: queria ser feliz na profissão, mas também queria ganhar dinheiro.

Esse misto de idealismo com pragmatismo me perseguiu por toda a vida. Foi assim quando decidi estudar alemão (idealismo) e ser, se não a melhor, uma das melhores estudantes da minha turma (pragmatismo). Isso me traria ao mesmo tempo reconhecimento e felicidade (idealismo) e um bom emprego (pragmatismo). Foi assim também quando, de volta ao Brasil e sem muita noção do que poderia fazer com meu diploma de mestrado em linguística alemã e filologia românica, aceitei ser secretária em empresas multinacionais alemãs (pragmatismo) e, dando o meu melhor em atividades nada a ver com o alto e profundo grau de conhecimento em línguas e literaturas que eu adquirira em anos de estudo (idealismo), mas com bons salários (pragmatismo), consegui me tornar uma expert de RH, fazendo o que eu sempre achei que me faria feliz (idealismo).

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Faz poucas semanas, estive no Rio. Quem me conhece, sabe que adoro samba, carnaval, o Rio e tudo que gira em torno disso. O samba é “a” identidade cultural e a manifestação de brasilidade que mais reconheço em mim. Dito isto, fui a um ensaio de bloco e me surpreendi com o que encontrei ali.

A bateria, composta por amantes do samba, gente de classe média, de todas as idades, muito esforçados, fazia um samba, digamos no mínimo, contagiante. Na regência, o comandante era um rapaz jovem, aparentemente de classe social diferente, esbaldando liderança com serenidade e segurança. Lindo de se ver e ouvir!

Claro que tive que ir conversar com ele. Me apresentei como jornalista de SP (mentirinha básica), interessada em entender como ele conseguia fazer com que essas pessoas, amadoras, mais velhas, que provavelmente estavam ali só para se divertir e talvez se distrair, chegassem a um resultado tão bom. Como ele conseguia motivar e engajar aquelas pessoas, exigir disciplina e deixá-las claramente felizes, mesmo num domingo de sol de rachar, no centro da cidade. Ou seja, como ele liderava aquilo tudo. Estava curiosa também em saber se aquilo era sua atividade principal, sua profissão, e se sentia feliz e realizado.

E foi aí que eu conheci mais de perto o Bruno, ou melhor, o Marfim. Atenção: mestres de bateria, têm apelidos, não nomes. Do alto dos seus 29 anos de experiência e idade (ele é filho de um renomado e reconhecido mestre de bateria e já brincava com pandeiro antes de aprender a andar), me disse que o segredo da liderança é a confiança: o grupo confia nele porque ele domina a técnica; ele sabe do que está falando e sabe o que está fazendo; ele faz e age com propriedade. E mesmo na hora da bronca, ninguém está interessado se ele é mais novo ou mais velho. O fato é que ele é o mais capaz. E o grupo confia nele. Ele não esqueceu de acrescentar um humilde “modéstia à parte” ao final. Resumindo: ele, um verdadeiro líder, evoca no grupo a admiração que só aqueles que dominam a técnica e têm liderança conseguem transformá-la em respeito e confiança.

Descobri também que Bruno é formado em técnico de segurança do trabalho e essa é, na verdade, sua principal atividade profissional, apesar de considerar o samba coisa séria. Muito séria! Mas como músicos em geral e o samba em especial não são muito valorizados no nosso país (pergunta básica: onde o samba poderia e deveria ser valorizado se não fosse no Brasil??), ele considera sua atividade como mestre de bateria um hobby. Hoje ele é Diretor de Bateria da São Clemente, Escola do Grupo Especial do Rio, e Mestre de Bateria do bloco A Rocha.

Marfim chegou a estudar música (percussão), lê partitura e tudo, mas precisa pagar as contas e, por isso, também fez a formação de técnico de segurança do trabalho. Não sei se ele é tão respeitado e como se sente exercendo aquilo que aparece na sua carteira de trabalho. Na minha ilusão de amante do samba, acho que talvez seja mais reconhecido, mais bem-sucedido e feliz no seu hobby do que como analista (?), coordenador (?), gerente (?) de segurança do trabalho. Vendo-o reger a bateria, me parecia pleno, como um verdadeiro maestro.

Não sei dizer com certeza, mas tenho a impressão que ele poderia gerar mais valor para a sociedade brasileira se pudesse se dedicar àquilo onde é realmente bom e onde me parece muito feliz. Desejo ao Marfim que pudesse ser mestre full time e de “carteira assinada”. E que pudesse, com isso, pagar as suas contas. Assim como eu.

Joana Rudiger, apaixonada pela educação, e Presidente da Enactus. É uma das colunstas do RH Pra você. Foto: Divulgação. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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