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A cultura come a estratégia no café-da-manhã

Coluna 3784

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A frase atribuída ao guru da administração, Peter Drucker, é cada vez mais atual e importante, inclusive no campo da saúde. A afirmativa de que “a saúde é o segundo maior custo em recursos humanos na empresa” que é repetida à exaustão, traz em si o conceito ou pré-conceito de que se trata de algo que deva ser controlado, mitigado ou mesmo cortado.

Por outro lado, devemos reconhecer que, para o cidadão, conforme as várias pesquisas recentes têm demonstrado, a saúde se constitui na possibilidade de acesso a serviços, como hospitais, consultas médicas e exames e não ter uma vida mais saudável. Ou seja, apenas consumir serviços em saúde.

O capital humano tem sido reconhecido como um elemento estratégico nas organizações modernas, pois dele depende a inovação, o crescimento das companhias e a ampliação dos mercados. Neste contexto, a saúde assume uma importância fundamental. Estudos internacionais têm demonstrado que pessoas saudáveis são mais engajadas, criativas, faltam menos ao trabalho, adoecem e se acidentam menos.

O cenário nacional mostra uma acelerada curva de envelhecimento da população, associado a um aumento das doenças crônicas (doenças cardiovasculares, câncer, doenças pulmonares crônicas e diabetes) com relação a indicadores cada vez piores relacionados aos fatores de risco (atividade física, alimentação, tabagismo e uso abusivo do álcool). Basta observar os dados mais recentes do Ministério da Saúde que mostram que mais da metade dos adultos brasileiros estão com peso acima do normal e estamos atingindo dois dígitos nas taxas de diabetes.

Neste contexto, prestar atenção unicamente na sinistralidade (ou as internações, cirurgias, exames, etc.) ou os afastamentos do trabalho (licenças prolongadas, aposentadoria precoce) é “olhar no retrovisor”.

O professor John Quelch da Universidade de Harvard criou um modelo de cultura de saúde baseado em quatro pilares que foi publicado em seu livro “Building a culture of health: a new imperative for business”.  Ele defende que todos os negócios tem grande relação com a saúde.  Em primeiro lugar, através da saúde e segurança dos produtos e serviços que o negócio vende ou oferece ao consumidor.Em segundo lugar, através dos esforços das empresas para garantir a segurança, saúde,bem-estar de seus funcionários, incluindo os trabalhadores em sua cadeia de suprimentos, ou seja, a saúde do trabalhador. Terceiro, através dos investimentos do negócio para melhorar a saúde, segurança, e, padrões de vida daqueles que vivem nas comunidades onde faz negócios ou saúde da comunidade. E, finalmente, quarto, através do impacto das operações do negócio no ambiente - por exemplo, emissões de carbono, uso de água e resíduos, ou seja, saúde ambiental. Através destas quatro maneiras, toda empresa estabelece uma pegada de saúde da população, consciente ou inconscientemente.

Assim, é importante que se adotem métricas que balizem os relatórios, em vários níveis corporativos em que se incluam os custos com a assistência à saúde do empregado e a saúde como um desfecho (ou resultado), refletindo o impacto mais amplo da produção de uma empresa,definidos como seus produtos e serviços e na saúde do consumidor. Um exemplo de relatório é o modelo de “seis capitais” proposto pelo International Integrated Reporting Council (IIRC) utilizado inclusive por algumas empresas brasileiras, que é um aperfeiçoamento do modelo “triple bottom line – pessoas, planetas e capital” proposto na década de 90 por John Elkington. Através deste modelo, se reporta com métricas específicas os capitais financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social e natural, onde um capital não se subordina ao outro.

A cultura de saúde se constitui num avanço para o olhar do capital humano, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, e que não se restringe a controle de custos ou despesas no dia-a-dia de uma organização.

Por Alberto Ogata, presidente da Associação Internacional de Promoção de Saúde no Ambiente de Trabalho (IAWHP). É um dos colunistas do RH Pra Você.