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A crise como experiência de gestão de ecossistemas de inovação

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Em tempos de COVID-19, as empresas se enxergaram, de repente, em uma situação em que a transformação digital se tornou necessária e urgente. Muitas delas tiveram que recorrer às suas redes de parceiros em busca de soluções para desafios, como: trabalho remoto, soluções de delivery, ensino e atendimento a distância, entre muitos outros. Nesse cenário, tornou-se evidente a importância da gestão dos ecossistemas de inovação, já que setores com ecossistema mais desenvolvido conseguiram responder mais rapidamente às demandas geradas pela crise.

Esse conceito de gestão de ecossistemas de inovação é relativamente novo e vem sido encarado como uma evolução natural da open innovation. Ou seja, se a open innovation é quando a empresa busca, externamente, soluções para seus desafios de inovação, geralmente em startups ou pesquisadores, a gestão de ecossistema de inovação vai além, colocando os atores externos como parte essencial da capacidade da empresa de inovar. Nesse novo conceito, se estabelece uma relação de interdependência, que exige uma gestão com ferramentas e metodologias próprias, assim como outros processos fundamentais da empresa.

A própria 100 Open Startups nasceu da tradição de open innovation e passou a ser uma plataforma de gestão de ecossistemas de startups para corporações. Ou seja, é uma plataforma que permite, viabiliza e facilita a gestão de ecossistemas de startups e, portanto, de inovação com startups para grandes empresas.

Temos, ao longo dos anos, trabalhado com uma metodologia e plataforma de lançamento de desafios específicos – demandados por grandes empresas e para os quais as startups do programa podem aderir para serem avaliadas e selecionadas para um eventual relacionamento de negócio –, e com desafios maiores, mais abrangentes e setorizados, chamados de Grand Challenges. Esse sistema de desafios tem como base um processo bem estabelecido e maduro de mapeamento, avaliação, curadoria e matchmaking de startups para grandes empresas.

Diante da pandemia causada pelo novo coronavírus, percebemos uma convergência nas demandas de inovação feitas por parte das empresas. Assim, decidimos abrir nossa plataforma gratuitamente por algumas semanas, para que empresas, governos e sociedade civil lançassem seus desafios a partir de necessidades decorrentes da crise. Como esses desafios perpassavam diversos setores e recortes tratados nos Grand Challenges, denominamos essa ação como Super Desafio COVID-19 | Coronavírus.

Em três semanas de desafio aberto, foram 120 entidades com demandas curadas e aprovadas. A equipe do 100 Open Startups ficou com a função de interpretar essas demandas e agrupar as que fossem similares. Como resultado, os desafios dessas entidades foram agrupados em 12 temas de interesse, para os quais mais de 900 startups declararam ter soluções. Entre os temas, estavam demandas de home office, mobilidade, saúde e tratamentos, cultura e entretenimento, varejo, comércio e logística, educação e informação e apoio a comunidades.

A partir da candidatura das startups, as entidades proponentes avaliam aquelas interessadas em seu tema e formalizam, por meio da plataforma, o desejo em estabelecer uma conexão com a startup, chamada de match. Como resultado, tivemos 14 entidades com interesse em alguma startup e 91 startups que despertaram atração em alguma entidade.

Essa proporção reforça a Lei 100 – 10 – 1 das startups, segundo a qual, de cada 100 startups, 10 atingem sucesso no mercado e uma tem desempenho extraordinário. No caso do Super Desafio COVID-19 | Coronavírus, as primeiras três semanas geraram uma convergência para cerca de 10% de startups que encontraram entidades interessadas, enquanto pouco mais de 10% das entidades encontraram alguma solução de interesse.

Outra observação é que as entidades responsáveis por 80% dos matches são empresas que já possuem uma competência em trabalhar em redes ou com inovação aberta. Ou seja, entidades que já tiveram experiência com programas de open innovation e/ou relacionamento formal com o ecossistema de startups, como ArcelorMittal, BASF, Merck, Procter & Gamble e Raízen, por exemplo. Do lado das startups, todas as 90 que despertaram interesse das entidades já tiveram relacionamento de open innovation com alguma corporação anteriormente.

Também tivemos casos de empresas que aderiram ao desafio não somente com suas demandas, mas também com ofertas de apoio a startups, com o objetivo de prevenir o enfraquecimento do ecossistema, demonstrando que entendem a importância desse ecossistema e sabem que, eventualmente, irão demandar dele em seus processos de inovação. É o caso de empresas como Bayer, Andrade Gutierrez, Tegma, Accenture, BRF, Locaweb, Solvay e Edenred.

Hoje, após quatro semanas desde o lançamento do Super Desafio, enxergamos claramente que ele foi um verdadeiro experimento desse novo conceito de gestão e um teste de maturidade dos ecossistemas de inovação. Como exemplo, os quatro temas que atraíram mais startups e geraram mais matches são relacionados a áreas com seu ecossistema de inovação mais maduro: home office e trabalho a distância; saúde e tratamentos; varejo, comércio e logística; e educação, informação e conscientização. Isso reforça a importância do trabalho de gestão do ecossistema de inovação que mencionei no início deste artigo.

Outro aprendizado interessante foi analisar os 12 temas principais que convergiram da demanda dessas 120 entidades, que são um reflexo do que as proponentes entendem que o ecossistema pode oferecer, da mesma forma que a adesão de mais ou menos startups interessadas nos desafios mostra se essa percepção foi confirmada. Ao mesmo tempo, observamos que não tivemos empresas demandando soluções extraordinárias, fora de contexto em relação ao nível de maturidade e características das startups do nosso ecossistema.

Assim, concluímos que, além do benefício claro e óbvio de contribuir para o enfrentamento da crise causada pela pandemia, nossa experiência com o Super Desafio COVID-19 | Coronavírus foi importante, também, para perceber padrões, métricas de densidade e efetividade do ecossistema, e a conclusão a que se chega é que temos densidade suficiente em nosso ecossistema de startups para atender às principais demandas de inovação que as entidades buscam.

Por Bruno Rondani, CEO e fundador do movimento 100 Open Startups

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