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18% dos patrões assumem que não contratariam LGBTI para cargos de chefia

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Uma pesquisa realizada pelo site de recrutamento Elancers trouxe à tona uma triste realidade ainda presente – e bem longe de ser incomum – no mercado de trabalho: a do preconceito contra o público LGBTI. Segundo o levantamento feito em junho deste ano com dez mil empresas clientes da plataforma, 18% dos gestores responderam que não contratariam alguém parte da população LBGTI para assumir um cargo de liderança. 7% dos consultores afirmaram que não fariam a admissão “de forma alguma”.

As estatísticas trazidas no estudo remetem à realidade da professora Nivânia Araújo. Aos 50 anos, ela já viveu na pele o preconceito por conta de sua orientação sexual. “Há alguns anos, recebi o convite para assumir a diretoria de uma pequena escola em Belo Horizonte. A oportunidade estava garantida. Contudo, na mesma época, descobriram que eu namorava uma mulher. E foi o fim. Me disseram que os pais dos alunos poderiam se incomodar e que talvez fosse melhor que uma outra pessoa assumisse o cargo”, revela. “Fiquei tão abalada que desisti de continuar o meu mestrado. Minha formação, de repente, perdeu o sentido. Curiosamente, eu servia para ser professora, mas não para diretora, e por causa do meu relacionamento. Não conseguia aceitar”, acrescenta.

Mesmo discriminada, Nivânia optou por não procurar à Justiça. “Conversei com um advogado e ele me orientou a procurar a Vara Trabalhista, por conta de crime de injúria. Mas diante do fato, senti temor em me expor e fechar portas. Terminei o ano letivo por respeito aos meus alunos e então me desliguei da instituição”, conta.

Por região, o Norte lidera o índice de preconceito por parte das companhias. 20% dos contratantes não contratariam um colaborador que se assumisse homossexual. Já 15% seguiriam com a contratação, mas não para todos os cargos.

Segundo Eli Chagas, coordenadora de Recursos Humanos da TozziniFreire Advogados, apesar de haver maior presença dos LGBTI no mercado  de trabalho, a resistência ainda é grande. “Existem campanhas, fóruns, eventos, medidas especiais voltadas à causa. Mas lidar com o preconceito disfarçado de ‘tradicionalismo’ ainda é um grande desafio. A inclusão é evidente, mas os obstáculos ainda são ferozes”, aponta.

Em artigo, Antônio Lacerda, vice-presidente sênior da BASF e padrinho da Rede de Embaixadores de Diversidade e Inclusão da empresa, explica que somente iniciativas efetivamente concretas por parte das organizações farão com que programas de inclusão tenham sucesso. “É fundamental investir na capacitação de gestores, áreas jurídicas e equipes de recrutamento, a fim de desmistificar tabus e eliminar barreiras presentes nos diferentes processos de uma corporação”, diz.

Ainda assim, mesmo os programas de inclusão não são tão abrangentes, principalmente quando se pensa em cargos. De acordo com Eli, muitas empresas dizem enxergam a diversidade como um número. Elas só querem “dizer que há minorias em seu quadro”, mas pouco trabalham em prol de seu desenvolvimento. “Muitas empresas anunciam aos quatro ventos que são inclusivas e promovem a contratação de mulheres, negros, homossexuais, transexuais, refugiados, PCD’s e os mais diversos públicos que são minoria. Mas na prática, os cargos assumidos são baixos. Ter espaço na liderança de um setor ou na gestão é uma realidade que ainda engatinha”, aponta.