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Eduardo Farah

Consultor nas áreas de relacionamento e desenvolvimento. Professor. Praticante de meditação e mindfulness. Autor de “Mindfulness para uma vida melhor”.

Uma coisa que merece ser entendida com mais profundidade é o sofrimento. Eu não gosto dele, você não gosta, ninguém gosta. Para ser sincero, talvez isso nem seja verdade, pois provavelmente alguma parte de nós goste do sofrimento, já que agimos em sua direção, mas isso fica para outro artigo, pois é mais difícil de entender este ponto.

Um fato mais simples é que o sofrimento tem uma razão de ser. Ele nos ajuda a perceber que algo está fora do lugar. Orgulho, vaidade, obstinação, medo, raiva, entre outras características geram resistência para a gente perceber que há algo fora do lugar, que algo está ruim, que algo não está bom.

E, por conta disso, a gente tem dificuldade de mudar, de fazer algo diferente. O sofrimento acaba sendo um alavancador, um estimulador de mudanças necessárias.

Infelizmente, ele é uma escolha que quase todos fazem, para direcionar o que precisa ser feito. Ele muitas vezes é o sinal que mostra que estamos no caminho errado, e aí a gente busca o certo, quase sempre motivados por não estar mais suportando o sofrimento numa determinada situação.

Pode parecer ilógico, mas a escolha em abrir mão do sofrimento nem sempre é fácil. Muitas vezes ele precisa estar muito agudizado e durante muito tempo para escolhermos um caminho melhor, sem ele.

E, para acabar com ele, precisamos entender qual é a sua real causa. Neste momento da pandemia o sofrimento está atingindo picos inimagináveis, tanto individual quanto coletivamente. Mas:

1) todos estão cientes deste sofrimento?

2) estamos realmente conscientes do motivo pelo qual estamos sofrendo? E,

3) queremos mesmo abrir mão deste sofrimento?

Para encontrar estas respostas, podemos buscar ajuda em Epicteto, um filósofo grego que estudava como viver uma vida plena e feliz, e que dizia que: “as coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas… Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideraremos outra coisa a causa senão nós mesmos — isto é: as nossas próprias opiniões.”

Em outras palavras, o que nos perturba não é aquilo que acontece conosco, mas os nossos pensamentos sobre o que acontece conosco.

Você está sofrendo?

Vale a pena se perguntar e refletir: existe sofrimento em mim? E, se sim, onde, em que área da minha vida? E qual o motivo dele existir?

Pode parecer estranho, mas muitas vezes a gente está tão amortecido para evitar o sofrimento que a gente não percebe nem esse amortecimento, quanto mais o sofrimento. Ele está ali, latente, mas está “sob controle” de certa forma naquele momento.

Obviamente que a gente vai pagar um preço por isso, por estar sofrendo e, ao mesmo tempo, estar cortando a percepção do sofrimento. E os amortecimentos são dos mais variados tipos, como excesso de comida, trabalho, internet, pensar compulsivamente ou qualquer outro.

Nas minhas reflexões, pesquisas internas (dentro de mim) e nos meus estudos, inclusive em relação aos outros – por observação e relacionamento, incluindo na área profissional, compreendi que esse sofrimento é fruto de pensamentos, fruto de um sistema individual e coletivo de pensar compulsivamente e pensar negativamente.

E de criar interpretações de fatos (que é o oposto de compreender a realidade) e sofrer absurdamente por conta dessas interpretações. A mente fica fixada em algo, pensando no passado (no que aconteceu) e no futuro (pensando no que vai acontecer).

É claro que existem situações e fatos que causam dor, mas a dor não vem da cabeça, ela não vem dos pensamentos. Já o sofrimento ele vem dos pensamentos. Por isso gosto daquela frase que diz que “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”.

A gente vive momentos de dor, mas vive muitos, muitos e muitos mais momentos de sofrimento. Algo que parece infindável, criado pelo nosso mecanismo de pensar compulsivamente, de julgar, de interpretar, de acusar, de se colocar como vítima, de esquecer que nós que causamos isso. Isso é muito profundo e difícil de compreender além das palavras, além do entendimento cognitivo.

Este pensar compulsivo impede de ver os fatos, a realidade, e de escolher e agir a partir do bom e do positivo. Impede que façamos o que tem que ser feito, que é a forma para modificar uma realidade desfavorável. Em uma dimensão mais profunda, é o que nos impede de dizer um grande sim para o trabalho, para os relacionamentos, para a vida.

As pessoas à sua volta estão sofrendo

Se você está vivo, você está se relacionando. E para observar os outros é preciso estar com a mente e o coração abertos, indo além da indiferença e das muitas crenças que nos impedem de entrar em contato com o sofrimento do outro.

Aliás, a indiferença é sempre um sinal de que algo está fora do lugar em quem está indiferente. Se eu não assumo o meu próprio sofrimento, o sofrimento do outro me incomoda e eu tento me amortecer e não ver. Às vezes até o ataco, pois ele me lembra do meu sofrimento. Olhar para si, acalmando a mente, abre espaço para o brotar da intencionalidade positiva e da compaixão, consigo e com os outros.

O sofrimento está muito forte. Nas minhas aulas, nos meus treinamentos, nas minhas relações pessoais, parece que todos que conheço conhecem alguém que morreu por complicações da COVID. E o medo está muito forte, que é um dos principais ingredientes do sofrimento e que dispara o pensar compulsivo (temos explicações fisiológicas para isso, pela neurociência, pela atuação da amígdala cerebral).

O que você pode fazer?

O primeiro passo, como sempre, é assumir a existência do sofrimento, caso ele exista em você. O segundo passo, se ele existir, é abrir mão dele, o que significa colocar a sua força de vontade nesta direção. Se você está segurando uma batata quente, a forma mais simples de soltá-la é abrindo a mão. Parece ridículo, mas quantas vezes agimos sem largar a batata, pois ficamos segurando o problema na nossa mente?

Esta também é a fórmula para largar o pensamento compulsivo, redirecionando o foco da atenção e se colocando no papel de observador. O treino da atenção (Mindfulness) ajuda muito neste sentido, inclusive dando insumos para o autoconhecimento.

Acredito que eu, você e todo mundo podemos e devemos nos cuidar e cuidar do outro. Hoje isso é mais premente do que nunca. Treinar a mente para distinguir o que é real do que os pensamentos dizem sobre este “real” nos ajuda a cuidar de verdade. E se você está em uma posição onde tem mais a oferecer, ofereça.

Quem está no RH pode disponibilizar diversas ferramentas aos colaboradores da empresa, como de Mindfulness, Saúde Mental, Qualidade de Vida, Bem-Estar, Acolhimento, Autoconhecimento, entre outras que irão ajudar neste momento.

Mas lembre-se que só damos o que temos. Então, faça também a sua lição de casa. Assim você realmente poderá ajudar. Estamos todos precisando…

Quer saber mais sobre este tema? Tem comentários? Gostaria que eu abordasse outros temas? Mande suas perguntas, sugestões e/ou comentários para mim: edu@invok.com.br . Espero que você fique bem, com saúde, física e mental. Um abraço.

Eduardo Farah é sócio da Invok e professor na FGV. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.


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