A importância do sono para a saúde dificilmente recebe o destaque que merece — especialmente no ambiente corporativo. Dormir bem não é luxo; é manutenção preventiva. Quando o sono falha, o corpo cobra: a criatividade diminui, o sistema imunológico enfraquece e surgem problemas físicos (metabólicos e cardiovasculares) e emocionais. Em outras palavras, sem sono não há superação — apenas sobrevivência.

A relação entre distúrbios do sono e trabalho é claramente bidirecional. Fatores ocupacionais como longas jornadas, demandas elevadas, trabalho em turnos e ambientes psicossociais negativos podem desencadear ou agravar problemas de sono. Por sua vez, os distúrbios do sono impactam diretamente o desempenho, a segurança e a produtividade.

Tomemos o trabalho em turnos como exemplo: ele desorganiza os ritmos circadianos e eleva o risco de distúrbios do sono, doenças cardiometabólicas, alterações de humor e acidentes de trabalho. Não por acaso, até 27% dos trabalhadores em turnos preenchem critérios clínicos para transtorno do sono relacionado ao trabalho. E o risco de acidentes? Pode aumentar entre 40% e 100%.

Quando combinamos insônia e apneia obstrutiva do sono — condições altamente prevalentes na população trabalhadora — os impactos se intensificam: perda de produtividade, absenteísmo, presenteísmo e maior incidência de incidentes de segurança. Soma-se a isso o uso inadequado de medicamentos indutores do sono, que muitas vezes agrava o problema.

No universo corporativo, falamos muito sobre produtividade, engajamento e bem-estar — mas raramente sobre algo que afeta silenciosamente todos esses fatores: o social jetlag. Trata-se de um fenômeno real, descrito pela ciência, que representa o descompasso entre o relógio biológico e as exigências sociais. Em outras palavras, é quando o corpo pede uma coisa, mas a agenda exige outra.

Durante a semana, muitos profissionais acordam mais cedo do que gostariam, guiados pelo despertador implacável. Já nos fins de semana, o corpo finalmente assume o controle e o sono flui naturalmente. O problema é que essa dança desigual cria uma fadiga cumulativa difícil de compensar, nem com café, energéticos ou medicamentos.

Do ponto de vista organizacional, o social jetlag vai além do cansaço. Ele afeta tomada de decisão, criatividade, humor e indicadores de saúde, como o risco metabólico. E, convenhamos: colaborar com colegas mal-humorados por causa de noites mal dormidas não é o sonho de ninguém.

Há estratégias corporativas e individuais para lidar com o problema. Políticas de horários flexíveis, modelos híbridos de trabalho e programas de educação sobre higiene do sono são ferramentas valiosas para reduzir o desalinhamento entre a vida corporativa e o ritmo biológico. Individualmente, cada pessoa pode colaborar valorizando suas horas de descanso, reduzindo o tempo de tela antes de dormir, evitando o consumo excessivo de álcool e adotando técnicas de relaxamento e equilíbrio.

Enfim, o sono definitivamente precisa entrar na agenda da promoção da saúde e do bem-estar nas organizações. Priorizar o descanso é investir em pessoas — e investir em pessoas é garantir ambientes mais saudáveis, produtivos e sustentáveis.

Alberto Ogata,  Médico,  Mestre em Medicina e Economia da Saúde (UNIFESP), Doutor em Saúde Coletiva (FMUSP), EX presidente do IAWHP e ABQV. Professor e pesquisador FGV SAÚDE. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.