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Renata Meireles

Psicóloga com pós em Adm. de Empresas e extensão pela Northwestern University em temas de Inovação, Marketing e Gestão de Pessoas. Gerente de RH da Cyrela

Não é novidade o quanto a pandemia do Covid-19 alterou a dinâmica de trabalho das organizações. A maioria das empresas percebeu diversas vantagens na modalidade de trabalho remoto, entre elas, a manutenção ou aumento da produtividade e a considerável redução de custos com a operação de seus escritórios. Do lado dos colaboradores, a otimização do tempo (que antes era gasto com deslocamento) e a melhor qualidade de vida, proporcionada por um sistema de trabalho mais flexível.

A questão que se coloca é: esse modelo de trabalho atendeu a uma realidade pontual e específica ou deve ser manter como uma tendência daqui para a frente? Já observamos algumas empresas anunciando que pretendem manter as suas operações integralmente de maneira remota. Mas quais as vantagens e desvantagens desse modelo?

Uma pesquisa realizada pela Workana (considerada a maior plataforma que conecta freelancers a empresas), em 2020, aponta que 94,2% dos profissionais CLT gostariam de continuar trabalhando remotamente após a pandemia e que 96,7% deles entende o home office como um benefício que será um diferencial na hora de escolher a empresa onde querem trabalhar.

Entre os principais benefícios apontados pelos colaboradores estão a economia de tempo de traslado até o escritório, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, melhor gestão do tempo, aumento de produtividade e maior satisfação no trabalho. Por outro lado, apontam que também existem algumas desvantagens como a falta de infraestrutura adequada (cadeira, equipamentos, etc.), a ausência de um espaço exclusivo para desenvolverem suas atividades em casa e a falta de clareza nas comunicações da empresa.

Nesse contexto, boa parte das empresas parece apontar para uma escolha mais equilibrada: o trabalho híbrido, com parte da rotina sendo realizada remotamente e parte em seus escritórios.

Um dos principais desafios percebidos pelas empresas no trabalho à distância é a disseminação de cultura e o estímulo para a inovação. A geração de novas ideias parte, muitas vezes, de interações sociais, principalmente as espontâneas. Encontros casuais nos corredores, na hora do café e almoços são os principais momentos de construção de confiança. E, quanto mais confiança há em um ambiente, mais criativas as pessoas conseguem ser.

As interações sociais frequentes são fundamentais para a construção de um time que atue de maneira conectada. É mais difícil construir essa confiança virtualmente, pois você precisa agendar um horário e ter um tema pré-definido o que, por si só, já poda boa parte da geração de ideias espontâneas. A prática de brainstorming (ou “toró de palpites”) também fica prejudicada, pois o fluxo de ideias se altera muito nesse formato. Não é possível interromper facilmente alguém no mundo virtual e conversas paralelas (que muitas vezes contribuem enormemente) também não são possíveis.

Numa tentativa de simular esses momentos, muitos líderes têm proposto encontros virtuais mais descontraídos, como happy hours, para falar de temas fora da esfera de trabalho. No início da pandemia, essa prática funcionou bastante como momento de descompressão, porém, como esse cenário se tornou de longo prazo, as pessoas já estão cansadas com o excesso de reuniões virtuais e hiperconectividade, mesmo que a proposta seja para a descontração. Com isso, os líderes também têm percebido a importância de maior equilíbrio entre o virtual e o presencial.

Um outro fator relevante é que a distância pode gerar um sentimento de desconexão e instabilidade. Observamos um aumento considerável nos casos de ansiedade e depressão. Essa mesma pesquisa da Workana indicou que 43,7% dos entrevistados passaram a sofrer com quadros de ansiedade (13,2%), depressão (0,8%), dificuldade de concentração (24%), solidão (5,8%) e claustrofobia (0,8%). Ainda de acordo com a pesquisa, as mulheres foram as mais impactadas pela ansiedade: 28% delas disseram ter enfrentado o problema. Entre os homens, o índice ficou em 8,33%. Isso se dá porque, em geral, as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas atividades domésticas e pelo cuidado com os filhos. Enquanto não houver maior equilíbrio entre as questões de gênero, parece um cenário difícil de mudar.

A tendência é que as pessoas tenham a opção de escolher quando querem (e podem) fazer o trabalho remotamente e quando há real necessidade de estarem presencialmente no ambiente de trabalho. Os aspectos chave são a flexibilidade e o equilíbrio. O trabalho e vida pessoal não deveriam ser entendidos como opostos, mas como partes da vida de uma pessoa. E cada vez mais as empresas precisam se adaptar para conciliar essas forças. Criar práticas flexíveis, que atendam os mais diversos momentos de vida dos colaboradores e que se ajustem a necessidades particulares e individuais.

Esse novo modelo de trabalho também requer uma adaptação por parte dos colaboradores, sendo necessário o desenvolvimento de algumas competências essenciais como a organização, a adaptabilidade, a capacidade de atuar com autonomia e responsabilidade, a proatividade e a correta priorização (focar energia nas ações que realmente agregam valor e têm impacto positivo).

Não parece ser o fim dos escritórios, mas já percebemos uma releitura desses espaços de interação, com ambientes mais confortáveis e humanizados, que façam com que as pessoas realmente queiram estar ali, por escolha.

As empresas que conseguirem navegar bem no oferecimento desse equilíbrio terão maior vantagem na atração e manutenção de talentos, desde que as políticas organizacionais acompanhem uma verdadeira mudança de mentalidade, especialmente por parte dos líderes. Não adianta a empresa incentivar praticas flexíveis se os gestores não estiverem comprados com essa crença e diretriz. Assim, um forte trabalho de gestão da mudança é essencial para garantir o desdobramento dessas práticas de maneira mais homogênea por toda a organização.

Com certeza todas essas mudanças que temos vivenciado deixam um legado positivo na ressignificação do trabalho, nos fazendo despertar para uma busca por um estilo de vida que nos traga maior satisfação e felicidade.

Por Renata Meireles, Head de RH da Cyrela. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião da colunista. Foto: Divulgação.


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