As férias continuam sendo tratadas nas empresas como um benefício legal — um direito conquistado e previsto por lei. No entanto, há um ponto essencial que muitas lideranças ainda não assimilaram: as férias são também uma poderosa ferramenta de preservação da saúde mental e emocional dos profissionais.
Em um mundo corporativo que valoriza a produtividade extrema, a alta performance contínua e a hiperconectividade, o simples ato de "sair de férias" já não garante descanso. A mente segue ativa, ruminando pendências, controlando cenários futuros e alimentando a ansiedade por não estar produzindo. Isso revela um desequilíbrio mais profundo entre trabalho e vida, que precisa ser reconhecido e endereçado pelas lideranças e áreas de Recursos Humanos.
Férias como estratégia de cuidado corporativo
Organizações inteligentes já entenderam que incentivar a pausa é também incentivar a sustentabilidade do desempenho. O repouso não é o oposto da produtividade — ele é o seu alicerce.
A desconexão real nas férias exige não apenas a ausência física, mas a autorização simbólica, vinda da cultura organizacional, para que as pessoas possam realmente descansar. Isso significa:
- ambientes que não glorificam a sobrecarga,
- gestores que dão o exemplo ao se desligarem,
- times bem preparados para manter a operação fluindo sem aquele colaborador, e, principalmente, respeito ao tempo de descanso alheio.
O que está por trás da dificuldade de “desligar”?
A experiência tem mostrado que os profissionais têm encontrado dificuldade para usufruir plenamente das férias, por motivos que vão além do volume de trabalho. Alguns dos fatores mais recorrentes são:
- Crenças sobre valor pessoal atrelado à produtividade
Muitos colaboradores sentem culpa por descansar, pois foram ensinados a acreditar que só são valiosos quando estão produzindo. Uma pesquisa da Harvard Business Review (2022) mostrou que 62% dos profissionais de alta performance sentem-se desconfortáveis em tirar férias por medo de parecerem “menos comprometidos”. - Insegurança em delegar
Profissionais que centralizam funções ou sentem medo de serem substituídos tendem a não se desconectar totalmente. De acordo com um estudo da Deloitte (2023), 40% dos executivos relataram não conseguir desligar-se do trabalho durante as férias por receio de perder relevância. - Desorganização prévia
A falta de planejamento antes das férias leva a uma avalanche de tarefas no retorno, gerando ansiedade durante a pausa. A consultoria Gallup identificou que líderes que organizam suas equipes para períodos de ausência têm 27% mais chance de se beneficiar emocionalmente das férias. - Exaustão acumulada
É comum que o colaborador só consiga começar a relaxar quando já está prestes a retornar, por ter chegado às férias num estado extremo de cansaço físico e emocional. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o burnout afetou 42% dos trabalhadores brasileiros em 2023 — e uma das principais recomendações para prevenção é o uso efetivo de períodos de descanso.
O papel do RH e da liderança
Cabe às empresas — e principalmente aos líderes — estimular uma cultura em que as férias sejam vistas como algo saudável, necessário e benéfico para todos. Isso passa por atitudes concretas, como:
- Planejar a ausência do profissional com antecedência;
- Respeitar seu tempo de descanso, evitando contatos desnecessários;
- Incentivar rotinas mais equilibradas ao longo do ano, para que a pausa não seja uma tentativa desesperada de recuperação.
Férias: uma pausa para voltar inteiro
Promover o descanso autêntico é investir em profissionais mais saudáveis, criativos e motivados. As férias permitem reconectar-se com o essencial: com os próprios valores, com a família, com o prazer da vida fora dos prazos e metas.
Desligar não é um luxo. É um direito — e, mais do que isso, é uma estratégia de bem-estar organizacional. Que as empresas não apenas permitam, mas estimulem pausas verdadeiras, para que seus talentos possam voltar mais inteiros, presentes e vivos.
Profa. Dra. Fátima Motta, Sócia-Diretora da FM Consultores. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.
