A chegada de ferramentas de inteligência artificial ao ambiente de trabalho veio acompanhada de uma promessa simples, mas promissora: gestores com mais tempo livre traduzem-se em equipes mais orientadas, com trabalho estratégico e maior engajamento. Pesquisas recentes já mostram que essa expectativa tem fundamento, como é o caso de um levantamento da University of Lausanne, que apontou que gestores economizam, em média, cerca de 2 horas e 50 minutos por semana ao usarem a tecnologia para tarefas administrativas e de comunicação, tempo que pode ser redirecionado para liderança e novos aprendizados.
Porém, vale destacar que a tecnologia sozinha não garante nenhum benefício cultural: temos diversos exemplos no mercado, além de análises da McKinsey sobre prontidão organizacional, que enfatizam a liderança como o principal fator determinante desses impactos positivos. Hoje, as empresas que conseguem transformar as economias de tempo resultantes do uso de IA nos processos diários em práticas de gestão (mentorias, feedbacks, redefinição de objetivos etc) são as que colhem ganhos reais, enquanto aquelas que deixam o tempo extra ser consumido por mais tarefas operacionais ou reuniões não veem diferença no engajamento.
Ou seja, ainda que a IA crie novas oportunidades, cabe à liderança decidir e guiar a melhor forma de aproveitá-las. E os efeitos positivos observados têm ido além do aumento da eficiência: quando bem aplicada, essa tecnologia atua como catalisador da experiência subjetiva do trabalho, permitindo que as pessoas tenham ideias melhores, menos frustração nas tarefas repetitivas e mais energia no trabalho criativo.
Porém, é importante entender que também existe um outro lado dessa realidade, que costuma ser subestimado: o uso amplo da IA no cotidiano pode aumentar sensações de isolamento, reduzir oportunidades de aprendizagem prática e até promover o famoso “workslop”, que são conteúdos de baixa qualidade que precisam ser revisados. Ou seja, todo esse tempo ganho, sem o direcionamento correto, pode empobrecer o capital humano, além de diminuir a moral e confiança. Porém, esses efeitos negativos podem ser facilmente combatidos com uma boa governança e treinamentos adequados.
No fim das contas, fica claro que o impacto positivo da IA sobre o clima organizacional depende menos da ferramenta e mais das escolhas de gestão, com métricas que contabilizem a conversão do tempo em liderança, políticas que preservem oportunidades de aprendizagem e programas de requalificação.
Precisamos que os líderes e gestores atuem como “curadores” da transformação digital, o que inclui definir intencionalmente quais processos devem ser automatizados e quais precisam continuar sendo humanos, pois envolvem empatia, escuta ativa, colaboração e criatividade. Portanto, quando a IA é usada para liberar tempo e energia para essas atividades, ela deixa de ser somente uma ferramenta de produtividade e passa a ser um instrumento de cultura e propósito organizacional.
Gustavo Caetano é fundador da Samba, especialista em soluções digitais simples, inteligentes e eficazes que impactam significativamente os resultados, proporcionam vantagens competitivas e perpetuam com maturidade os clientes no mercado. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.