Se Janeiro Branco virar apenas mais uma campanha, falhamos.
Falhamos como empresas.
Falhamos como líderes.
E falhamos como RH.
A Organização Mundial da Saúde já chamou pelo nome: epidemia.
Não é tendência. Não é moda. Não é “falta de resiliência da nova geração”.
É colapso emocional sistêmico.
E diante de uma epidemia, não se distribui folder. Se muda estrutura.
Então, se este artigo serve para alguma coisa, que seja para acender uma fogueira simbólica.
Não metafórica.
Prática.
Aqui está o que precisa ser queimado assim que você terminar de ler.
- Queime a cultura da urgência permanente
A ideia de que tudo é prioridade é uma fábrica de ansiedade institucionalizada. Quando tudo é urgente, nada é humano. Essa lógica destrói foco, saúde, vínculo e sentido, e ainda se apresenta como eficiência.
- Queime metas descoladas da realidade humana
Metas que ignoram carga emocional, complexidade relacional e limites cognitivos não são ambiciosas. São irresponsáveis. E o RH sabe disso, mesmo quando é obrigado a defender o indefensável.
- Queime líderes tecnicamente excelentes e emocionalmente analfabetos
Chega de promover quem entrega números, mas deixa um rastro de adoecimento por onde passa. Liderança sem maturidade emocional é risco organizacional, não ativo.
- Queime a terceirização da saúde mental
Palestra pontual.
Aplicativo da moda.
Campanha bonita em janeiro.
E o resto do ano igual.
Isso não é cuidado. É transferência de culpa para o indivíduo.
- Queime o silêncio institucional
O RH não pode mais ser o lugar que “sabe, mas não fala”. Quando a área que cuida de pessoas se autocensura para não desagradar, a empresa já está doente — só ainda não assumiu.
- Queime a ideia de que saúde mental é problema pessoal
Enquanto a empresa continuar dizendo, ainda que nas entrelinhas, que o colaborador precisa “se virar melhor”, o adoecimento continuará sendo produzido em escala industrial.
- Queime a normalização do esgotamento
Não é normal viver cansado.
Não é normal trabalhar com medo.
Não é normal precisar adoecer para ser levado a sério.
O que foi normalizado precisa ser interrompido.
E agora, a parte mais difícil.
- Queime o medo do RH de ocupar seu lugar político
Porque sim, saúde mental é uma questão política dentro das organizações.
É sobre poder.
É sobre decisão.
É sobre o que se aceita, se protege e se perpetua.
Em 2026, o RH que fará diferença não será o mais simpático, nem o mais tecnológico.
Será o mais corajoso.
Corajoso para dizer: “isso adoece”.
Corajoso para levar dados e verdades ao conselho.
Corajoso para parar de apagar incêndio emocional e começar a questionar quem está espalhando gasolina.
Janeiro Branco não é sobre falar mais de saúde mental.
É sobre parar de produzir doença.
Se o RH não liderar essa virada, ninguém liderará.
E a epidemia continuará avançando, silenciosa, cara e profundamente desumana.
A fogueira está acesa.
A pergunta não é o que precisa ser queimado. O RH já sabe.
A pergunta é: O que você ainda está protegendo que já deveria ter virado cinza?
Se esse texto te atravessou, ele não foi escrito em vão. Compartilhe com quem decide cultura, metas e modelos de liderança na sua organização.
Leila Navarro, Palestrante Internacional, Escritora, Mentora de Transições e Especialista em Liderança e Futurabilidade. Referência em inovação e desenvolvimento humano, Leila é reconhecida por seu trabalho transformador em liderança, mentalidade empreendedora e adaptação às mudanças. Com mais de 24 anos de experiência, já impactou milhares de pessoas em empresas, universidades e eventos ao redor do mundo. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.
Outras reflexões de Leila Navarro sobre liderança, saúde emocional e futuro do trabalho estão disponíveis em: https://leilanavarro.com.br/blog/