Tenho pensado bastante sobre como começamos ciclos. Não no sentido do calendário, mas na forma como nos colocamos no mundo. Especialmente na maneira como falamos ou escolhemos não falar. Talvez esse seja um grande desafio para começarmos esse novo ciclo.
Às vezes as palavras saem da minha boca, sem que eu pense no que estou falando. Tipicamente o que Daniel Goleman chama de sequestros emocionais, típicos de quem é impulsivo(a) – como eu. No entanto, as palavras nunca são apenas palavras. Carregam estados internos, emoções mal resolvidas, pressa, cansaço, frustrações antigas. Isso acontece quando não estou realmente presente e falo a partir do automático. E, nesse lugar, o risco não é apenas sermos mal interpretados, mas atingirmos o outro com algo que nem sempre sabemos nomear em nós mesmos.
Grande parte dos conflitos que observo (e vivo) não nasce do conteúdo do que é dito, mas do estado emocional de quem fala. Emoções mal administradas pedem vazão, e a linguagem costuma ser o caminho mais rápido. O problema é que o outro recebe o impacto completo, sem acesso ao nosso bastidor interno.
Curiosamente, nesse mesmo cenário, convivemos diariamente com respostas produzidas por Inteligência Artificial. Respostas educadas. Acolhedoras. Éticas. Cuidadosas com as palavras. Evitam o conflito, não atacam, não ironizam. Não explodem.
E isso me trouxe uma reflexão bastante incômoda: devemos aprender a nos comunicar como máquinas?
A resposta não é simples.
Se, por um lado, a IA nos oferece um espelho de uma comunicação mais contida, respeitosa e consciente do impacto, por outro, ela não sente. Não se frustra. Não carrega histórias mal digeridas. Não tem impulsos para conter.
Nós temos.
E é aí que mora o dilema.
Se nos tornamos excessivamente “polidos”, corremos o risco de perder a naturalidade.
Se somos espontâneos demais, machucamos.
Se falamos, geramos conflito.
Se silenciamos, criamos distância.
Confesso que, muitas vezes, esse lugar parece um beco sem saída.
Talvez por isso o silêncio tenha se tornado, em alguns momentos, um companheiro. Um silêncio que protege, mas que também afasta. Que evita danos, mas cobra seu preço em presença, vínculo e proximidade.
O desafio, então, não é nos tornarmos máquinas.
É nos tornarmos mais conscientes.
Conscientes do que estamos sentindo antes de falar.
Conscientes do impacto das palavras no outro.
Conscientes de que emoções não elaboradas sempre vazam — se não pela boca, pelo corpo ou pelas relações.
Talvez a verdadeira inteligência humana, esteja em aprender a pausar, não para nos calar, mas para escolher melhor de onde falamos. Nem da reatividade bruta, nem da frieza artificial. Mas de um lugar mais inteiro, mais presente, mais responsável.
Isso talvez não gere concordância imediata.
Mas pode gerar relações mais honestas, diálogos menos violentos e um pouco mais de humanidade em tempos tão automatizados.
E, sinceramente, isso já é muito.
Preciso muito saber o que você pensa sobre isso.
Profa. Dra. Fátima Motta, Sócia-Diretora da FM Consultores. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.