Ao longo da história, o mercado de trabalho tem passado por transformações significativas, cada uma moldando a forma como as organizações interagem com seus funcionários. Um dos conceitos mais revolucionários que emergiram deste desenvolvimento contínuo é o Recrutamento Humanizado, que coloca as pessoas no centro das estratégias corporativas.

Este artigo explora a trajetória histórica do recrutamento humanizado, destacando como as mudanças sociais e econômicas contribuíram para sua evolução e a urgência de sua aplicação atualmente.

Da Revolução Industrial ao Reconhecimento dos Direitos dos Trabalhadores

A Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX) foi um marco crucial, inaugurando o capitalismo e transformando radicalmente os processos de produção. As fábricas surgiram e, com elas, novos padrões de consumo e uma expansão sem precedentes da produção. Os trabalhadores, muitas vezes vistos como meras extensões das máquinas, enfrentavam condições de trabalho precárias, com longas jornadas e sem direitos trabalhistas, o que
frequentemente resultava em assédio e exploração.

Movimentos como o Ludismo e o Cartismo foram fundamentais na luta por melhorias. Estes movimentos não apenas desafiaram o status quo, mas também iniciaram um diálogo sobre direitos trabalhistas, culminando na redução da jornada de trabalho e no estabelecimento de leis que visavam proteger os trabalhadores.

A Evolução

Até 1929, o setor de Recursos Humanos era primariamente operacional, conhecido como RH Embrionário. Com o advento da CLT no Brasil em 1943, sob a liderança de Getúlio Vargas, o RH começou a assumir um papel mais legal e estruturado, garantindo direitos como jornadas justas de trabalho e benefícios sociais. Este foi um passo significativo em direção ao reconhecimento do RH como uma área crucial dentro das organizações.

A partir de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a chegada de multinacionais no Brasil, o RH teve que se adaptar e se tornar mais criterioso, dando origem aos primeiros subsistemas de Recursos Humanos focados em remuneração, treinamento e gerenciamento de carreiras.

Com o advento da globalização e os avanços tecnológicos, as práticas de recrutamento começaram a refletir uma nova consciência sobre a importância de tratar candidatos não apenas como potenciais empregados, mas como seres humanos com expectativas, emoções e necessidades específicas. O foco se expandiu para incluir a experiência do candidato, a equidade no processo de seleção e a integração de novos colaboradores de maneira respeitosa e inclusiva.

A pandemia de COVID-19 acelerou essa tendência, trazendo questões de saúde mental e trabalho remoto para o centro das discussões sobre recrutamento e gestão de pessoas. Empresas que adotaram abordagens humanizadas perceberam não só um aumento na satisfação e na produtividade dos empregados, mas também um melhor desempenho no mercado.

E o Futuro do Recrutamento Humanizado?

O Recrutamento Humanizado transcende a ideia de uma mera tendência, consolidando-se como uma estratégia fundamental, uma técnica refinada e, acima de tudo, uma necessidade imperativa em um mundo onde o bem-estar dos indivíduos ganha cada vez mais destaque.

E como podemos implantar esse modelo?

Para incorporar o Recrutamento Humanizado de maneira efetiva, as organizações podem adotar várias abordagens práticas, cito abaixo algumas para servir de inspiração:

  • Transformar as entrevistas em diálogos mais interativos e abertos, criando um espaço onde os candidatos possam não apenas ser avaliados, mas também avaliar a empresa e seus valores. Este formato deve incluir perguntas abertas que incentivem os candidatos a compartilhar suas experiências e expectativas, além de destacar como podem contribuir de forma única para a organização. É crucial incorporar entrevistas baseadas em competências e utilizar o método STAR (Situação, Tarefa, Ação, Resultado), o que pode enriquecer significativamente o processo de seleção e trazer insights mais profundos sobre as habilidades e comportamentos dos candidatos.
  • Garantir que cada candidato receba um feedback detalhado e construtivo após o processo seletivo, seja qual for o resultado. Este feedback deve não apenas reconhecer o tempo e esforço investidos pelo candidato, mas também oferecer orientações valiosas para seu desenvolvimento profissional futuro. Além do feedback, é recomendável fornecer recursos educativos que possam auxiliar na evolução da carreira dos candidatos não selecionados.
  • Aprimorar os processos de seleção para torná-los mais inclusivos, levando em conta a diversidade de estilos de vida, culturas e necessidades individuais. Isso envolve a implementação de entrevistas virtuais, testes de habilidades adaptáveis a diferentes contextos, e oferecimento de horários de entrevista flexíveis. É essencial que a avaliação seja projetada não apenas para atender às necessidades da empresa, mas também para garantir o bem-estar e a conveniência de todos os participantes. Tal abordagem assegura que o processo de seleção seja justo e acolhedor, promovendo uma experiência positiva para cada candidato.
  • Intensificar o treinamento de recrutadores para capacitá-los na identificação e mitigação de vieses inconscientes, garantindo uma seleção mais justa e equitativa. É fundamental que os recrutadores sejam treinados não só para promover uma comunicação que valorize a diversidade e inclusão, mas também para entenderem sua responsabilidade e autoridade no processo de seleção. Eles devem ser preparados para conduzir as entrevistas com confiança, fornecendo insights e recomendações claras aos gestores, assegurando que as decisões de contratação sejam bem-informadas e refletem os valores da empresa. Este enfoque fortalece a posição do recrutador como um parceiro estratégico essencial no processo de seleção, aumentando a eficácia e a integridade das contratações.
  • Adotar uma abordagem proativa para promover a diversidade no ambiente de trabalho é essencial, não apenas para atender a obrigações legais e éticas, mas como uma estratégia empresarial crucial. Ao fomentar um ambiente inclusivo que valoriza as diferenças, as organizações podem maximizar o potencial de sua força de trabalho. Isso resulta em soluções mais inovadoras e maior satisfação dos colaboradores, impulsionando o desempenho e o sucesso empresarial, além de contribuir para a educação e evolução da sociedade.
  • Integrar soluções tecnológicas avançadas para otimizar o processo de recrutamento, garantindo que o foco permaneça no aspecto humano. É recomendável a adoção de processos semiautomatizados que combinem eficiência tecnológica com sensibilidade humana. Isso inclui o uso de sistemas de rastreamento de candidatos (ATS) que vão além da simples filtragem por experiência, incluindo critérios que avaliem o potencial dos candidatos e sua compatibilidade cultural com a empresa.

E quais são os benefícios do Recrutamento Humanizado?

  • Funcionários contratados através de processos humanizados tendem a ter maior satisfação no trabalho e lealdade à empresa, reduzindo as taxas de rotatividade.
  • Empresas reconhecidas por suas práticas éticas e respeitosas atraem não apenas talentos de qualidade, mas também clientes e parceiros que valorizam esses princípios.
  • Ambientes que respeitam e valorizam a diversidade de pensamento incentivam a inovação, pois diferentes perspectivas são consideradas e valorizadas.

É fundamental que as empresas não apenas reconheçam, mas também se adaptem à necessidade de um recrutamento humanizado, integrando-o como um componente essencial de uma cultura organizacional que valoriza o respeito, a inclusão e o desenvolvimento contínuo dos funcionários. Ao implementar essas práticas, as organizações não só aprimoram a qualidade de suas contratações, mas também criam um ambiente de trabalho onde os colaboradores se sentem valorizados e estimulados a crescer junto com a empresa. Essa estratégia é crucial para desenvolver uma força de trabalho mais comprometida e leal, impulsionando a inovação e fortalecendo a competitividade no mercado.

Ana Chauvet é especialista e pioneira no tema Recrutamento e Liderança humanizada. Top Voice e Creator mundial no LinkedIn. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.