Por que as empresas ainda têm dificuldade em usar dados para tomar decisões?

Vivemos a era da abundância de dados. Todos os dias, empresas geram, armazenam e acumulam uma quantidade quase obscena de informações sobre clientes, processos, operações e mercados. A promessa é sedutora: decisões baseadas em dados são mais racionais, precisas, eficientes. E, no entanto, a grande maioria das organizações ainda tateia no escuro. A pergunta permanece inquietante e, para muitos, desconfortável: por que, afinal, é tão difícil usar dados para decidir?

Temos mais dados do que nunca, mas ainda confiamos demais no feeling, no instinto, na experiência acumulada de quem ocupa posições de liderança e isso, por si só, é sintoma de um problema mais profundo: um desalinhamento entre cultura organizacional e a real capacidade de transformar dados em inteligência aplicada.

Cultura de dados não gira em torno de tecnologia, gira em torno de poder

A maior parte das empresas acredita que o desafio está em adotar ferramentas. Contratam plataformas, integram sistemas, montam times de ciência de dados. Tudo isso importa, claro. Mas a tecnologia, por si só, não transforma uma organização. O que transforma é a cultura e ela não se compra com orçamento de TI. O dado só ganha poder quando passa a ser ouvido, interpretado, respeitado. Quando deixa de ser um enfeite no dashboard para virar argumento na mesa de decisão.

Desenvolvimento da Inteligência Emocional

Mas há um obstáculo invisível nesse processo: a estrutura de poder. Porque decidir com base em dados significa, muitas vezes, contrariar a hierarquia. Deslegitimar o “eu acho” de um gestor. Revisar a intuição de quem lidera eisso mexe com egos, com zonas de conforto, com estruturas que resistem a qualquer movimento que possa diminuir o controle subjetivo que muitos líderes exercem. O dado, nesse cenário, é quase um corpo estranho: ou é manipulado para validar decisões já tomadas, ou é ignorado com justificativas narrativas. A verdade baseada em evidências, quando incomoda, vira ruído.

O outro lado do abismo é ainda mais silencioso: a ausência de gente preparada. Faltam profissionais que saibam ler dados e transformá-los em insights úteis. Mais do que cientistas de dados, faltam tradutores. Pessoas capazes de fazer a ponte entre o número e o negócio. Entre o Excel e o impacto.

O mais grave: mesmo quando existem, muitas vezes esses profissionais não recebem autonomia para mudar rumos. Gestores transformam seu trabalho em relatórios, que acabam virando anexos — e ninguém os abre.

Vê-los é fácil, querer vê-los é outra história

Outro fator que dificulta o avanço de uma cultura data-driven é a dureza dos dados. Eles expõem ineficiências, contradições, fracassos. Mostram o que a empresa não quer enxergar: uma campanha que performou abaixo da média, um produto que não entregou valor, uma estratégia que está descolada da realidade. Os dados não mentem e é justamente por isso que tantos preferem ignorá-los.

Segundo a Gartner, mais de 80% dos projetos de dados fracassam em entregar valor real, não por limitações técnicas, mas por problemas culturais e de governança. É um alerta claro: enquanto as empresas enxergarem os dados como adereços e não como instrumento de transformação, seguirão presas ao velho ciclo da intuição, com decisões baseadas em percepção, vaidade e conveniência.

A solução está menos na tecnologia e mais na coragem. Coragem para mudar a forma como as decisões são tomadas, para admitir que os dados muitas vezes revelam verdades desconfortáveis e para criar uma cultura onde evidência vale mais do que cargo.

E, acima de tudo, para entender que dados não mudam empresas. Pessoas mudam. Com dados nas mãos certas, com liderança aberta à escuta e com disposição real para aprender, corrigir e evoluir. O resto é ruído, vaidade ou marketing institucional.

Porque, no fim das contas, a pergunta certa talvez não seja por que as empresas ainda têm dificuldade em usar dados. A pergunta real é: será que elas realmente querem usá-los?

dados_foto da autora

Por Alessandra Montini, diretora do LabData, da FIA.

 



🎧 Ouça o episódio 211 do RH Pra Você Cast:

“Escritórios cheios: dá para voltar ao presencial sem perder talentos?”

A volta para os escritórios é uma tendência que cresce cada vez mais. Diversas plataformas de vagas já identificam um aumento significativo nas oportunidades presenciais. Por outro lado, as opções híbridas e remotas não mantêm o mesmo ritmo de antes.

Mas, diante dessa mudança, será que os profissionais estão realmente satisfeitos com essa decisão? Empresas têm suas razões para trazer equipes de volta ao ambiente físico. No entanto, o impacto dessa medida no engajamento dos talentos merece atenção.

Como a volta ao presencial afeta o engajamento dos profissionais

Para entender melhor esse cenário, conversamos com Raissa Florence, Cofundadora e Diretora de Growth da Koru. Sua análise traz insights valiosos sobre como os profissionais estão lidando com a transição para o trabalho presencial. não deixe de ouvir o episódio completo!

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