Errar rápido exige contexto

“Errar rápido” é um mantra do Vale do Silício. Como profissional de mídia em agência, essa frase sempre me causou arrepios. Este ano, minha mãe ficou hospitalizada por cinco meses, em alguns momentos em estado muito crítico. Em certos ambientes e contextos, não se pode errar. Há circunstâncias - pessoais e profissionais - que simplesmente não toleram deslizes.

Os erros não são todos iguais. Justamente por isso, pesquisas como as de Amy Edmondson, de quem sou admiradora, são valiosas: elas oferecem dados, linguagem clara e responsabilidade ao tema.

Sim, existe ciência por trás de “aprender com os erros”.

Por que tememos o erro?

O medo não é apenas traço individual; é social, profundo e antigo. Com efeito, Edmondson escreve em O jeito certo de errar: Como as falhas nos ensinam a prosperar:

“Além da aversão emocional e da confusão cognitiva, há um medo profundamente enraizado de não ser bem-visto pelos outros. Isso é mais do que uma mera preferência. O medo induzido pelo risco de rejeição social remonta à nossa herança evolutiva, quando a rejeição poderia literalmente significar permanecer vivo ou morrer de fome ou exposição a perigos variados.

Quando o medo se instala, ativamos a amígdala e acionamos mecanismos de luta, fuga ou congelamento. O córtex, que nos permite pensar criticamente, decidir e ponderar, fica em segundo plano. Resultado: as funções superiores envolvidas em criatividade, raciocínio e aprendizagem são rebaixadas. Pedir que as pessoas “errem rápido” sem preparar o terreno é, muitas vezes, um convite ao silêncio e à repetição do conhecido.

Sync 2025

Contexto importa (e muito)

Antes de qualquer recomendação, é preciso entender onde as falhas acontecem. Nesse sentido, Edmondson organiza três tipos de contexto:

  • Consistentes: ambientes estáveis, procedimentos claros e previsíveis, alta precisão e baixa tolerância a erros. Exemplos: seguir uma receita; coletar sangue em laboratório.
  • Variáveis, cenários parcialmente previsíveis: há conhecimento, mas imprevistos pedem adaptação. Exemplos: pronto-socorro diante de sintomas atípicos; pilotos enfrentando mudanças climáticas súbitas.
  • Novos: territórios inéditos, variáveis desconhecidas, sem solução pronta. Erros são parte do processo de experimentação e aprendizado. Exemplos: desenvolver um produto inovador; montar logística emergencial numa pandemia.

Cada contexto pede um modo de operação: execução rigorosa (consistente), prudência adaptativa (variável) e experimentação cuidadosa (novo).

Três tipos de falhas identificadas por Edmondson

  • Falha básica: surge quando não usamos o conhecimento disponível por desatenção, negligência ou excesso de confiança. É corriqueira, mas pode ser catastrófica.
  • Falha complexa: a “tempestade perfeita”: multicausal, combina fatores humanos, técnicos e externos; ocorre, muitas vezes, em contextos familiares e costuma trazer sinais de alerta que passam despercebidos: a cultura do bode expiatório piora a situação: com medo de punição, as pessoas deixam de reportar cedo e pequenos problemas viram crises muito maiores. Assim, é necessária prontidão e contingência. "Crisis ready organizations" foi um termo que apareceu no SXSW 2025.
  • Falha inteligente: é a que ensina quando estamos em território novo. Não glamouriza o erro; organiza o aprendizado.

Ainda segundo a autora, existem quatro atributos que torna uma falha “inteligente”:

  • Quando ocorre em novo território;
  • Guiada por uma oportunidade crível, conectada a um objetivo desejado;
  • Informada pelo conhecimento disponível, guiada por hipóteses;
  • Tem a menor dimensão possível, ainda assim gerando insights valiosos.

Em outras palavras: experimentos pequenos, bem desenhados, com propósito claro. Nada de “errar por errar”. Nem somente “errar rápido". Aprender com o erro não é um ato isolado de coragem.

É um sistema estruturado: segurança psicológica para diálogos francos, respeito e alertas; método para testar e intencionalidade para registrar e escalar o que funciona. É isso que muda o jogo.

Errar rápido_foto da autora

Por Simone Gasperin, Sócia & Head de Marketing e Growth da BPool, plataforma que atua globalmente na transformação das contratações e pagamentos de serviços de marketing. Com presença em mais de 10 países, é conectada a um ecossistema de mais de 1.500 parceiros e 4500 freelancers, atendendo a mais de 70 marcas de clientes como L'Oréal, Reckitt, Akzonobel, Unilever, Vivo, Novartis, Pinterest e Pernod Ricard.



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