Nos últimos anos, temas como saúde mental, liderança humanizada e novas dinâmicas de trabalho ganharam destaque nas empresas brasileiras. Mas, apesar de todos os avanços, um campo que pode revolucionar a forma como organizações lidam com pessoas ainda engatinha em muitos contextos: a neurociência.
Para a psicóloga Fernanda Figueiredo (capa), especialista em cultura, liderança e performance, aplicar conceitos da neurociência no RH não é apenas uma tendência, é um grande diferencial competitivo. “Eu não sou neurocientista, sou uma entusiasta. E isso já mostra que qualquer pessoa pode estudar o básico e aplicar no dia a dia. Não é preciso ser PhD para fazer a diferença”, afirma.
Segundo a fundadora da Talento Gestão Integrada, o simples ato de compreender como o cérebro funciona já oferece ferramentas para transformar rotinas de gestão. “A neurociência é para todos. Ela não precisa ser restrita ao meio acadêmico. Se você estuda o mínimo, já consegue aplicar em feedback, avaliação de desempenho, onboarding e gestão de mudanças. Isso por si só gera uma diferença absurda nas empresas”, destaca.
Do feedback à cultura organizacional
A entrada de Fernanda no universo da neurociência aplicada ao trabalho começou pelo tema feedback. Para ela, esse processo tão comum, mas ainda tão mal conduzido em muitas empresas, é um excelente exemplo de como a biologia do cérebro interfere diretamente no ambiente corporativo.
“Biologicamente, é quase impossível não reagirmos a um feedback. Nosso organismo interpreta como uma ameaça e aciona o sistema de luta ou fuga. Quando entendemos isso, conseguimos conduzir a conversa de maneira mais empática e estratégica”, explica.
Essa percepção a levou a expandir o uso da neurociência para outras áreas do RH. “Hoje eu utilizo esses conceitos em todos os processos: na integração de novos colaboradores, na construção da cultura organizacional, em treinamentos, na avaliação de desempenho e até mesmo em programas de desligamento. Em qualquer processo em que o ser humano esteja envolvido, a neurociência ajuda a entender e a desenhar experiências melhores.”
A psicóloga ressalta que a resistência à mudança, por exemplo, é um reflexo direto do funcionamento do cérebro, explicando que o sistema nervoso trabalha para garantir nossa sobrevivência. Mudanças são interpretadas como ameaças. Isso, diz ela, explica por que tantas vezes são encontrados os mesmos problemas de liderança em empresas diferentes, independentemente do porte ou do setor. A neurociência explica esse caminho e oferece mecanismos de solução.
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O “básico” que já transforma
Mas, afinal, o quanto de conhecimento em neurociência é capaz de mudar a gestão de pessoas? Fernanda é enfática: não é preciso dominar termos complexos, conhecer cada detalhe anatômico do cérebro ou mergulhar em anos de pesquisa científica.
“Compreender o sistema de luta e fuga já é suficiente para repensar a forma como conduzimos feedbacks, processos de mudança, avaliações de desempenho e até desligamentos. Esse conceito básico ajuda o RH a olhar para as reações humanas com mais empatia e a criar estratégias para reduzir a reatividade natural das pessoas.”
Ela dá um exemplo concreto: em uma organização que tinha grande número de profissionais neuroatípicos, foi necessário redesenhar toda a escala de avaliação de desempenho. “Se o processo é rígido e não considera as diferentes formas de funcionamento do cérebro, você exclui ou dificulta a participação de muita gente. A neurociência mostra que precisamos adaptar ferramentas e linguagens para incluir todos. O que antes era visto como falha de um colaborador pode ser, na verdade, uma característica neurológica”, explica.
Além disso, a neurociência ajuda a entender como o ser humano aprende e assim aprimorar programas de capacitação e desenvolvimento. “Por isso, nos meus treinamentos, sempre uso simulações. O cérebro não distingue o real do imaginário em situações de estresse. O participante reage como se estivesse vivendo de fato aquela situação, o que gera um aprendizado muito mais profundo e duradouro".
Liderança no centro da transformação
Se há um ponto crítico no qual a neurociência pode gerar impacto imediato, esse ponto é a liderança. A especialista destaca que 70% do engajamento das pessoas nas empresas depende do comportamento dos líderes.
“Se eu consigo desenvolver líderes que entendem como suas palavras afetam o cérebro das pessoas, já há uma transformação imensa. Muitas vezes, a diferença entre um time engajado e outro desmotivado está em como o líder se comunica e reage em situações de pressão.”
Ela explica que trabalhar o autoconhecimento dos gestores é o primeiro passo. “Quando um líder entende como ele mesmo reage biologicamente em um momento de conflito ou em uma tomada de decisão, ele passa a enxergar com mais clareza também o comportamento da sua equipe. E isso muda a qualidade da comunicação.”
Por isso, a defesa é para que treinamentos sejam desenhados com base em evidências neurocientíficas. Fernanda utiliza simulações para alcançar respostas reais.
“O coração acelera, a respiração muda, o corpo reage como se fosse verdade. É nesse momento que conseguimos mostrar ao líder o que está acontecendo no cérebro dele e como ele pode criar novas estratégias de reação. Não basta apenas entender que somos reativos. É preciso criar caminhos para minimizar essa reatividade. A neurociência oferece técnicas para isso e ajuda a estruturar processos mais consistentes, que geram resultados.”
Por que o RH demorou tanto para trazer a neurociência?

Apesar do potencial, a neurociência demorou a chegar ao dia a dia das empresas. Para a especialista, isso aconteceu porque o tema parecia complexo e inacessível. “Durante muito tempo, o campo ficou restrito à academia, com uma linguagem carregada de termos técnicos. Isso afastou o RH.”
Outro fator foi a sobrecarga operacional dos profissionais da área. “Muitas vezes o RH ainda é visto como custo e não como investimento. Quando a área não tem espaço estratégico na empresa, sobra pouco tempo para inovar. O time fica preso em rotinas operacionais e não consegue trazer novidades.”
Esse cenário começou a mudar recentemente, impulsionado pela ascensão da inteligência artificial e do neuromarketing. “Essas áreas mostraram que a neurociência podia ser aplicada de forma prática. Isso abriu espaço para que o RH também começasse a olhar para o tema. Hoje já vemos startups e eventos especializados discutindo o assunto, mas ainda há um longo caminho pela frente.”
Fernanda destaca que essa transformação é desigual. Nas grandes empresas, o tema já aparece com mais força. Mas no universo das pequenas e médias, que representam a maior parte do PIB brasileiro, a neurociência ainda parece distante.
Urgência estratégica da aplicação da neurociência
Diante de todos esses pontos, onde a neurociência se encaixa hoje nas empresas? Para Fernanda, não é exagero dizer que ela já se tornou essencial.
“Não gosto de alarmismo, mas posso dizer que é urgente. Se você quer resultados diferentes, inovar e se posicionar como RH estratégico, não dá para ignorar a neurociência. Ela traz explicações e caminhos para lidar com o comportamento humano, que é a parte mais complexa da gestão.”
Ela lembra que a evolução das práticas de gestão sempre exigiu mudanças: saímos do comando e controle para modelos mais colaborativos, e agora vivemos a era da liderança humanizada. “E a neurociência é um dos caminhos para trilhar essa liderança. A tecnologia já entendeu isso. E quando falamos de pessoas e comportamento, é ainda mais relevante”, finaliza.
Senior Experience 2025
Fernanda Figueiredo estará presente no Senior Experience 2025, criado pela Senior Sistemas, no dia 7 de outubro, com o tema “Neurociência aplicada à gestão: a ciência como aliada da nova liderança”. O evento que acontece no Transamerica Expo Center, em São Paulo, deve reunir cerca de 2 mil líderes empresariais em uma experiência imersiva de 35 horas de conteúdo.
Com mais de 50 palestrantes confirmados, esta edição terá nomes como Ana Paula Padrão, que falará sobre liderança feminina, o ex-tenista Guga Kuerten, que compartilha sua trajetória de superação e vitórias, Marcos Piangers, referência em inovação e criatividade, e Junior Borneli, especialista em gestão de negócios e inovação.
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Serviço
Senior Experience 2025
- Data: 7 de outubro de 2025
- Local: Transamerica Expo Center
- Endereço: Av. Dr. Mário Vilas Boas Rodrigues, 387 - Santo Amaro, São Paulo - SP, 04757-020
- Mais informações e ingressos aqui.

