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Em 2015, o bilionário Tadashi Yanai, reconhecido em 2021 pela Forbes como o homem mais rico do Japão, impôs na Uniqlo, principal empresa da rede varejista fundada por ele, a Fast Retailing, uma jornada de trabalho diferente dos padrões aos quais o mercado está acostumado: semana com quatro dias trabalhados e três de folga. 

Diferente de uma escala de trabalho 12×36, na qual os colaboradores atuam, normalmente, quatro vezes por semana em um ritmo de “dia sim, dia não”, numa jornada de 12 horas, na organização do dono da 31ª maior fortuna do planeta a rotina trabalhista deixou de ser de oito horas divididas em cinco dias trabalhados por semana e mudou para uma escala de quatro dias com dez horas cada de trabalho.

Nos últimos anos, ainda em um ritmo tímido, outras empresas testaram a jornada de quatro dias trabalhados e três de folga. Em matéria publicada na última semana pela BBC, o assunto voltou à tona com impacto após o portal falar sobre a adaptação da Islândia à escala. Segundo a matéria, no país, as horas semanais de trabalho foram reduzidas de 40 para 35 ou 36 (nas organizações que testaram o ritmo 4×3), porém na maioria dos casos a produtividade ou permaneceu a mesma ou foi superior a antes. Tamanho o sucesso, 86% da força de trabalho do país já aderiu à jornada.

Com a chegada da pandemia, algumas companhias, a fim de se adaptar às mudanças não só mercadológicas, mas culturais e sociais que a propagação do novo coronavírus impôs, também se propuseram a testar o modelo. A multinacional Unilever, por exemplo, pôs a jornada 4×3 em prática na Nova Zelândia. 

A prática existe no Brasil?

A Awin, rede de marketing de afiliados que tem sede em Berlim, adotou a prática em todos os países de atuação, o que inclui o Brasil. A jornada de quatro dias trabalhados por semana entrou em vigor oficialmente em 2021 e não proporcionou nenhum tipo de redução salarial. Antes do ‘martelo ser batido’, a empresa testou a iniciativa por seis meses e identificou resultados positivos, oferecendo maior flexibilidade, autonomia e tendo feedbacks favoráveis do time de trabalho.

No ano passado, a companhia recebeu o prêmio de Melhor Rede de Afiliados no International Performance Marketing Awards, reconhecendo o nível dedicado de apoio e expertise oferecidos aos parceiros da rede durante este período complicado imposto pela Covid-19. Com a mudança, a organização deu também início a um processo de reestruturação dos escritórios para proporcionar um ambiente que promova melhor colaboração e inovação.

“Com o bem-estar do nosso pessoal como prioridade, temos experimentado uma abordagem mais moderna para trabalhar com foco inteiramente nos resultados, em vez de uma medida mais tradicional. A semana de quatro dias é o auge disso e oferece ao pessoal da Awin a oportunidade de passar tempo com a família, concentrar-se em outras paixões ou engajar-se em aprendizagem adicional para que o tempo em que eles passem trabalhando seja o mais produtivo possível. Usando uma mistura de tecnologia, equipes em múltiplos fusos horários e uma mentalidade ágil, faremos isso mantendo nosso serviço habitual”, afirma Adam Ross, Chefe de Operações da Awin”.

Quem também escolheu trilhar o caminho da jornada 4×3 foi a startup mineira Crawly. Com atuação voltada para soluções de dados para inteligência de negócios, o negócio também teve resultados satisfatórios.

“Acreditamos que um dia a mais de descanso por semana e a adoção home office, possa contribuir para deixar as pessoas mais felizes, mais saudáveis, gerando assim um ambiente de trabalho mais agradável. E é comprovado que pessoas mais felizes, descansadas e saudáveis produzem mais. Além disso, é um excelente diferencial de mercado para apresentarmos durante os processos de recrutamento”, conta Pedro Naroga, co-fundador e CTO da Crawly.

Para o CEO da organização, João Drummond, a estruturação da empresa neste formato é voltada ao pensamento que não se resume ao lucro, mas também pensa na qualidade de vida de cada funcionário. Como consequência, ele afirma que o negócio tem maior potencial de atração e de retenção, com a rotatividade tendo índice menor.

“Embora a gente sempre tenha adotado o modelo home office e jornada de trabalho de quatro dias, não tendo como comparar ao modelo tradicional, podemos dizer que funciona, pois no último ano tivemos apenas um pedido de demissão e uma equipe extremamente comprometida que ajuda no crescimento da empresa. Outra vantagem é que durante os processos seletivos contamos com um pool de candidatos do Brasil inteiro (e até alguns de fora, como já foi o caso). Isso nos traz vantagem competitiva, pois temos maiores e melhores opções na hora de contratar”, avalia.

João Drummond

João Drummond

O que diz a legislação

Especialista em Direito do Trabalho, a advogada Juliana Silva diz que não há problema em as empresas optarem por uma jornada de trabalho 4×3, desde que algumas regulamentações não deixem de ser seguidas.

“No caso de uma eventual escala 4×3, não haveria problema algum reduzir as horas semanais trabalhadas”, destaca a advogada, que ressalta, porém, que alguns cuidados precisam ser mantidos caso a jornada não altere o total de horas semanais. 

“Estamos habituados com jornadas semanais de 40 a 44 horas, que é o limite máximo imposto pela CLT, sendo qualquer excedente passível de pagamento de horas extras ou acúmulo de banco de horas. Portanto, as empresas têm escalas de oito a nove horas diárias – neste caso, com a obrigatoriedade em reduzir uma hora em um dos dias da semana, caso seja 5×2 habitual. No entanto, no modelo 4×3 essa rotina seria de 10 a 11 horas trabalhadas em um dia. A mudança para 10 horas já é testada nos países que utilizam o modelo de quatro dias trabalhados por semana, mas acima disso pode proporcionar problemas legais e até sindicais. Não estamos aqui falando de uma jornada como a 12×36, no qual o profissional trabalha por 12 horas e descansa nas 36 seguintes”, explica.

Quanto aos salários, Juliana esclarece que, mesmo que uma eventual redução de horários trabalhados na semana seja a opção escolhida pelas empresas, a remuneração deve ser mantida. 

“É bom deixar claro que as empresas não podem escolher uma escala de trabalho alternativa se isso proporcionar prejuízos ao colaborador. Ou seja, se o seu negócio planeja entrar no ritmo de 32 ou 36 horas semanais, não é por isso que os colaboradores podem ter sua remuneração reduzida. O valor do salário-hora será maior e qualquer cenário diferente disso carece de negociação e autorização do sindicato da respectiva categoria. E os gestores não podem se esquecer que, uma vez que a escala for alterada, colaboradores que já integravam o time de trabalho deverão ter a mudança em seus contratos”, diz.

É um modelo sempre vantajoso?

Historicamente o formato de redução de horas é benéfico tanto para empresas como para funcionários. O modelo de cinco dias por semana, por exemplo, foi introduzido por Henry Ford em 1926, que descobriu que a produtividade e o lucro aumentavam com semanas de 5 dias – até então, os trabalhadores tinham um dia de folga semanal, no geral. Outro exemplo foi a fábrica da Kellogg’s que reduziu os acidentes em 41% ao diminuir a jornada de horas.

A primeira tentativa de uma jornada de trabalho entre 32 e 36 horas – considerando os casos em que a jornada 4×3 conta com essa redução – foi na França, em 1998. A medida foi tomada como tentativa para combater os altos índices de desemprego do país, na época na faixa dos 12%. Antes disso, na década de 1950, Richard Nixon, que anos mais tarde (1969) se tornaria o 37ª presidente dos Estados Unidos, já falava em uma rotina corporativa de quatro dias trabalhados e três descansados na semana.

Embora os casos citados nesta matéria, como o da Awin e o da Crawly, tenham agradado os gestores, é válido salientar que algumas situações precisam ser evitadas para que a ideia, que parece boa, não seja um transtorno. É preciso que a organização seja muito bem feita para que não fique nenhum “buraco” no atendimento. Na Crawly é necessário combinar dentro das equipes quais serão os turnos de atividade de cada um. João Drummond explica que as equipes têm alguns colaboradores que trabalham de segunda a quinta e outros que trabalham de terça a sexta, por exemplo.

“Assim garantimos que sempre teremos um mínimo de pessoas durante todos os dias da semana. Foi necessário também criar processos internos de intercâmbio entre projetos e de plantões rotativos, para que consigamos continuar a garantir disponibilidade total e irrestrita de suporte técnico aos nossos clientes que trabalham com semanas tradicionais”, comenta.

Segundo Jorge Martins, sócio-fundador da Bullseye, empresa de recrutamento e seleção, a jornada de quatro dias de trabalho, seja com ou sem redução na escala total, não quer dizer que o colaborador vá trabalhar menos. “mas que com a competência dele será possível entregar o esperado pela empresa com um dia a menos. Com isso, ele terá mais tempo de descanso, mais qualidade de vida e vai dividir melhor o horário”.

O especialista fala também, que olhando para o Brasil existem alguns pontos que precisam ser levados em consideração. Além da legislação, deve-se observar também a questão de infraestrutura. Isso porque será necessário desenvolver processos que sejam inteligentes, automatizados, com comunicações claras e objetivas e com uma linha de burocracia mais leve dentro das atividades do dia a dia das pessoas. Isso sem dúvida possibilitaria mais tempo para o trabalho, permitindo que esse modelo de menos dias seja adotado, mas sem perder a eficiência.

“É fundamental termos desenhos de processos e burocracia reduzida. Isso sem dúvida melhoraria muito a qualidade de vida das pessoas. Além disso, a definição do modelo de cinco dias foi há muitos anos. Hoje, evoluímos muito com a ajuda de tecnologia que nos permite adotar outros formatos, pensando mais no desenvolvimento humano, sem deixar de lado os resultados que as empresas precisam alcançar”, elucida Jorge.

Jorge Martins

Jorge Martins

Pensando em eventuais contras, a primeira e mais óbvia ressalva é que o modelo não tende a ser o mais eficaz para todo tipo de negócio. Aqueles que funcionam em mais períodos do dia ou até 24h precisariam contar com um contingente ainda maior de colaboradores para suprir a jornada 4×3, o que poderia não ser financeiramente vantajoso.

Além disso, embora o modelo tenha sido sucesso em alguns países, como é o caso da Islândia, talvez a cultura de outros não seja tão facilmente adaptável. Em matéria do portal Canaltech, foi destacado um estudo realizado na Holanda no qual 1,5 milhão de pessoas do país responderam que gostariam de trabalhar mais horas e não menos. 

Não menos importante é reforçar que, em escalas de, por exemplo, 36 horas, o colaborador não pode simplesmente exceder para as 40 horas “tradicionais” sem que haja custos a mais para o negócio. Caso ocorra, as quatro horas a mais trabalhadas devem ser pagas como extras ou se tornarem banco de horas. Portanto, empresas que não se adaptassem teriam mais gastos.

Por Bruno Piai


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