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Fátima Motta

PhD em C.Sociais e mestre em Adm. Especialista em comportamento e liderança. Professora. Psicanalista. Coaching. Sócia-Diretora da F&M Consultores.

Ao falarmos sobre este assunto que entitula o texto, podemos perceber sua importância, pois estamos passando por situações críticas de preconceitos no nosso país e no mundo.

Para compreendermos o tema da conversa de hoje, definamos o que é preconceito: “É qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico. É um sentimento favorável ou não, para com alguém ou algo, anterior a, ou não baseada na verdadeira experiência, ou é um sentimento hostil motivado e assumido em consequência, por hábitos de julgamento ou generalizações apressadas – intolerância. O preconceito é o conceito que se tem sobre uma opinião ou sentimento, sem exame crítico”.

Será que somos preconceituosos? Será que você tem algum preconceito?

A palavra preconceito sempre é vista como negativa. Sendo assim, ao invés de entendermos de fato essa palavra que estabelece um estado, já a classificamos como ruim e fica muito difícil nos autodeclararmos preconceituosos.

Essa postura favorece a dificuldade da mudança. Ou seja, se é a outra pessoa que tem preconceito e eu não, não preciso mudar. Por outro lado, se aceitarmos nossos preconceitos é possível trabalhar essa postura e transformá-la, se assim quisermos.

Nossa visão sobe preconceito é por vezes limitada. Sempre nos reportamos às diversidades física, mental, de gênero, mas além dessas há muitas outras, e a que mais esquecemos é a de personalidade, que é a diferença que existe entre os vários tipos psicológicos.

Quando se encara o preconceito de frente e se faz uma análise crítica,  tem-se a oportunidade de identificar as diferenças e potencializar o lado positivo, sendo possível trabalhar e conviver de maneira intensa e produtiva com resultados melhores, uma pessoa suprindo a lacuna da outra, em função das diferenças apresentadas.

Não existe uma formula mágica para nada na vida, pois a vida é extremamente complexa, mas o primeiro passo sempre é  reconhecer os preconceitos, imediatamente ficar  atento a esse aspecto e  começar a exercer o domínio crítico sobre a situação.

Precisamos viver o lugar do outro, e essa é uma questão central, limitada pelo que conhecemos como viés inconsciente.

O viés inconsciente dá origem a decisões e escolhas sem ter a consciência de nossos preconceitos, uma vez que atuam de uma maneira inconsciente. Para entender um pouco melhor do que se trata o viés inconsciente, basta observarmos o que vem acontecendo no Brasil e no mundo.

Ou seja, o grau de agressividade está por todos os lados, de quem defende ou de quem é contra. O uso de argumentos rasos e vazios e até mesmo de clichês são tipicamente preconceituosos, expostos por pessoas que jamais agrediriam uma outra pessoa de maneira proposital. Muitas vezes a pessoa não tem consciência daquilo que está fazendo, mas isso não inibe o mal que causa para o outro. O exercício de ter consciência sobre o seu preconceito, além de ser uma prática de autoconhecimento,  é um exercício de respeito em relação ao outro.

O viés inconsciente se instala, inclusive por uma questão relacionada ao racismo estrutural, ou seja, uma prática já institucionalizada por uma questão histórica ou cultural, ou mesmo por uma questão de acharmos que foi sempre  assim. Passa de geração para outra e se manifesta como um resultado preconceituoso no indivíduo que, sem ter consciência do que está fazendo, age a partir de um preconceito instalado.

Para se detectar esse racismo ou preconceito cultural, basta perceber se existem grupos desprestigiados, ou ainda violentamente desprestigiados que não conseguem chegar ao mesmo patamar do grupo dominante.

O assunto do preconceito é tão difícil de tratar, exatamente por nos considerarmos uma sociedade evoluída e acreditarmos na não existência de dominados e dominadores como os que existiam na idade medieval. No entanto, de modo muito sútil, o preconceito estrutural está na forma como você olha e pensa, apesar de não agir.

Em live feita comigo, Adriano Amui citou alguns dados do IBGE, dados oficiais do governo brasileiro que  se referem ao último censo de 2018.

  • Cargos gerenciais são ocupados 68.6% por brancos e 29.9% por pretos e pardos
  • Taxa de subutilização profissional- 18.8% da população branca em situação de subutilização e 30% para o outro grupo.
  • Linha de pobreza no Brasil – podemos analisar 2 linhas no Brasil: a linha que fica abaixo de 5.5 dólares por dia de renda: raça branca 15%, pretos e pardos – 33%
  • Linha que fica abaixo de 1.9 dólares por dia de renda: raça branca 3.6%, pretos e pardos – 9% da população
  • Representação política no Brasil 76% de brancos e 24% de pretos e pardos.

Existem dados mais que suficientes para entendermos que apesar de não nos consideramos racistas,  vivemos em uma situação que configura um prejuízo a grupos.

Outro exemplo: se pensarmos em uma empresa onde se precisa tomar uma decisão de desenvolvimento  ou de promoção de apenas 1 colaborador e precisa-se decidir entre o funcionário a e outro b, os dois em iguais condições, sendo que um faz parte de uma minoria e o outro não, qual seria o escolhido? Por que?

O que acontece quando uma pessoa não muito bem vestida fica perto de você, ou quando sabe da orientação sexual do seu filho(a) ser homossexual ou transexual. O que você pensa? Você se aproxima ou se afasta? Fica feliz ou se decepciona?

Quando o preconceito gera afastamento não se tem como saber o que a outra pessoa realmente necessita, ou como gostaria de ser tratada.

Uma ação prática para minimizar o preconceito nas empresas é iniciar pela primeiro executivo e  cascatear para os demais. E assim, entramos naquele fenômeno clássico de gestão de mudança de interpretar que a primeira reação da pessoa é a surpresa, depois a raiva, depois vão combater essa ideia, mas que no  final a transformação acontece.

A boa notícia é que caminhamos para uma sociedade que vai entender gradativamente o que está acontecendo nas diferentes partes do mundo e essa lucidez reconhecerá os resultados que demonstram não haver nenhuma evidência de que a diversidade traz algum prejuízo para a sociedade, muito pelo contrário.

A diversidade traz uma riqueza muito grande porque estamos num momento em que precisamos de ideias novas, pessoas diferentes que possam gerar novas ideias. É essa a beleza do momento em que vivemos, dessa revolução tecnológica, chamada de Revolução 4.0.

Precisamos pensar nas saídas: se uma delas é iniciar dos dominantes para os dominados, a outra é o reconhecimento efetiva do valor da população minoritária, pelos seus próprios integrantes, uma vez que o viés inconsciente também aí ocorre. O preconceito estrutural envolve também a parte que é prejudicada, que se vê sem saída porque as barreiras são imensas.

Outras práticas a implementar: a primeira delas é reconhecer que temos  viés inconsciente e descobrir quais são, como por exemplo: quando pego um gato preto o que eu sinto, quando pego um gato branco, o que sinto? Às vezes se associa o preto a alguma coisa ruim. Já pensou por que existe a Lista Negra e não Lista Branca?

Por vezes encaramos as coisas de forma tão natural que nem mesmo prestamos atenção no viés inconsciente que trazem.

Segunda prática é identificar quais são esses vieses; e a quarta é aproximar-se e interagir com pessoas diferentes, fazendo uma simples pergunta: e se fosse comigo?

Então, solução mágica não existe, mas o caminho para identificar e trabalhar nossos preconceitos do dia a dia é nos arriscarmos para saber como é ficar na pele do outro e somente quando isso acontecer é que poderemos ficar mais próximos  ao real sentido do “humano ser”.

Profa. Dra. Fátima Motta, Sócia-Diretora da FM Consultores. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.


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